A rua era escura e estava totalmente vazia. Bom, não totalmente, pois era possível distinguir um vulto entre a névoa que cobria o asfalto, e a chuva fina que caía naquele começo de madrugada. O som dos passos que caminhavam em direção a esse vulto e quebravam o silêncio daquela cena só não eram mais audíveis que as notas que ressoavam de um saxofone.
Ela caminhou em direção ao vulto e encontrou um homem, não muito mais do que um jovem, apoiado com um pé no único poste que estava com a luz acesa naquela rua. Enquanto ela refletia sobre o quão aquela cena parecia surreal, o saxofonista continuou sua melodia, alheio a presença da bela jovem que se aproximara. Com esmero, dedilhava seu instrumento musical e produzia notas da mais pura e profunda beleza, tais as quais os ouvidos da linda moça jamais haviam antes escutado.
Percebendo a presença de uma mulher a sua frente, o saxofonista parou de tocar. Com muita calma, e com a frieza de quem já está habituado ao gesto, procurou no bolso lateral de seu casaco surrado por uma carteira de cigarros e seu isqueiro entalhado com cartas de baralho. Posicionando o saxofone de lado, levou um cigarro à boca e o acendeu, enquanto fitava a senhorita que havia caminhado em sua direção.
Seus olhos se encontraram, e aqueles breves segundos pareceram uma eternidade, tamanha foi a tensão que preenchia o ar. O barulho das gotas de chuva agora era o único som existente naquele tempo e espaço. Não mais haviam os passos apressados e preocupados da senhorita, muito menos as notas musicais sinceras do saxofonista.
Como se fosse isso que era o esperado dela, a garota jogou seus lindos cabelos ruivos para trás, revelando um rosto que era muito mais lindo do que o saxofonista havia imaginado. Em seguida, tateando sua própria bolsa, encontrou também um cigarro e o levou à boca.
O saxofonista, calejado por anos de experiência na vida boêmia, sabia exatamente como agir. Em um gesto ágil, sacou seu isqueiro e o acendeu, frente ao rosto da linda ruiva. Seus olhos não se desviaram nem por um segundo enquanto ele acendia o cigarro da mesma. Ela tragou profundamente, como se estivesse avaliando a situação, e, então, em um suspiro, exalou toda a fumaça e finalmente disse as palavras que queria dizer sobre a música que havia ouvido pela primeira vez naquela noite chuvosa, naquela rua escura:
- Que melodia triste.
O saxofonista, em um misto de humor, sadismo, incredulidade e pena, contentou-se em fitá-la longamente e, tocando levemente sua face enquanto falava, respondeu-lhe:
- Querida, você não sabe nada sobre a tristeza.
Arrasou
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