quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Capítulo 2: OS GÊMEOS (parte I)


I


Péricles e Klériston não eram realmente gêmeos, apesar de dividirem a mesma data de nascimento e terem sido criados pelos mesmos pais. Péricles era um negro alto, de feições agressivas e o olhar sempre atento. Seus músculos pareciam ter sido forjados em aço, e seus punhos eram apenas uma válvula de escape para toda a força que ele continha dentro de si. Sua cabeça era raspada, e o brilho de sua careca lisa ofuscava até mesmo o dia mais claro e os mais incandescentes raios do sol. Sua sede por violência era algo que o acompanhava desde a juventude. Não havia muito que o diferenciava de Klériston, exceto, talvez, pelo fato de Klériston possuir visíveis – e orgulhosas – raízes germânicas. Klériston era tão alto e tão forte quanto seu dito irmão. Possuía também a mesma sede por violência, sangue inocente e baderna que o irmão, porém, possuía a pele mais alva do que a neve, e os cabelos longos, presos em um rabo-de-cavalo, mais loiros do que as garotas que se viam estampadas em pôsters de cerveja por aí. Seus olhos azuis possuíam um ar de serenidade que era facilmente destruído quando ele se engajava em algum conflito de qualquer sorte.

Todos sabiam que aqueles dois eram problema, e quem podia os evitava. Quem precisava, os procurava. Cansados de não saber como ganhar a vida de modo honesto, decidiram juntar o útil ao agradável, e vendiam seus serviços de infligir a dor e até mesmo a morte, por preços elevadíssimos, a quem pudesse pagar. Em virtude de estarem sendo sempre comprados para espancar, torturar e matar pessoas, não possuíam muitos amigos, afinal, nunca sabiam quando poderia chegar o momento em que receberiam uma grande quantia de dinheiro para desfigurar alguém que lhes fosse íntimo. Não, eles não possuíam muitos amigos, mas possuíam grandes fortunas. Não tinham escrúpulos e o dinheiro sempre falava mais alto.



quarta-feira, 20 de julho de 2011

capítulo 1: ROGER (parte IV)


IV


Os dois passaram os próximos anos de suas vidas ganhando dinheiro sujo, aplicando trapaças em jogos de pôker nos lugares mais insólitos da cidade e da redondeza. Em pouco tempo já eram visíveis os ganhos materiais dos dois trambiqueiros. Gordo estava com seu cabelo cada vez mais reluzente e bem penteado, e agora suas roupas acompanhavam o brilho capilar. Sempre bem vestido, com relógios modernos e camisetas de gola V, passou a enxergar na moda um novo hobby. Já Roger agora se vestia com roupas de flanela e ostentava pesadas correntes de ouro no pescoço. Atualmente, os que presenciaram as peripécias dos dois, costumam se referir às histórias como “os esqueminhas de Domingo”, pois todas as partidas de pôker aconteciam em Domingos pela parte da noite, que era, geralmente, o único momento da semana em que olhos alheios tinham a chance de ver Gordo e Roger juntos.

Tudo estava correndo as mil maravilhas, até que um dia a ganância e sede de vitória de Roger falou mais alto, e alguns movimentos em falso durante uma partida, com pessoas da pior espécie possível, o denunciaram. A farsa foi flagrada, e nem mesmo as ágeis mãos de Gordo foram capazes de arquitetar uma saída maluca para disfarçar a trapaça. A surra que os dois levaram foi homérica. Algo nunca antes visto, mesmo em uma cidade violenta e esquecida como aquela. Os chutes os atingiam e eles nem sabiam de onde é que vinham tantos pés recheados de ódio. O ar lhes faltava no pulmão e o único gosto que suas bocas sentia, além do medo e da surpresa, era o de sangue, juntamente com dentes sendo quebrados. O som dos ossos se partindo ressoava pela noite, como uma espécie de aviso aos próximos que considerassem a ideia de tentar qualquer gracinha. Nem mesmo o impecável cabelo de Gordo foi poupado, e pancadas em sua nunca o deixaram empapado em sangue, gel e vergonha. Aquele havia sido o ponto final para ambos, e, após dividir o dinheiro que haviam conseguido juntos, despediram-se sem muitas palavras e cada um tomou um rumo diferente, mas com igual vontade de sumir logo daquela cidade, que sugava a alma das pessoas e as corroía como ácido.

Com todas as notas de dinheiro dentro de uma sacola, e as várias roupas e adornos que havia comprado com a grana sujo em uma mala, Roger despediu-se de Gordo, não como alguém que se despde de um amigo, mas sim como alguém que se despede de um sócio. Entretanto, para quem sabe ler nas entrelinhas, era mais do que visível que existia ali algo de mutualidade e cumplicidade que ia além das simples relações de empreendimento que os dois travaram nos últimos anos. Quando ambos já estavam de costas, foi Roger quem proferiu as primeiras palavras, que provavelmente seriam as últimas que trocariam:


- Acho que finalmente começamos a viver. Não existe melhor momento para enfim ter medo da morte.


E Gordo, sem mesmo olhar para trás ou diminuir a velocidade de seus passos, respondeu-lhe, com certo tom de pesar em sua voz por vezes inflexível:


- Por quantos malditos caminhos um homem deve percorrer até se encontrar?


domingo, 10 de julho de 2011

Capítulo 1: ROGER (parte III)

III

Mais tarde, no mesmo dia em que tropeçou no mágico decadente, Roger encontrava-se jogado sob seu sofá encardido e esburacado, em um apartamento onde não havia nenhum talher e muito menos copos limpos, bebericando uma cerveja quente e comendo salgadinhos cujo prazo de validade era sem dúvida questionável – mas, por outro lado, qual alimento em sua casa, totalmente desordenada, não tinha procedência questionável? Eis que, não menos que de repente, uma ideia o acometeu, tão súbita quanto uma punhalada pelas costas de um melhor amigo, e Roger, que foi pego de sopetão por seu próprio pensamento, engasgou com a cerveja, tamanha foi a clareza com que o plano se esboçou em sua mente já cansada de perder. Rapidamente se levantou, jogou os salgadinhos pelo chão, onde estes fizeram companhia à uma enorme quantidade de comida ou coisas que nem mesmo longos testes em laboratórios poderiam dizer o que são, e vestiu uma jaqueta velha, que só não estava mais suja porque nos últimos dias Roger havia sido surpreendido por chuvas inusitadas, e essas chuvas deram uma lavadinha em suas vestes.

Como um louco tomado por uma obsessão repentina, ele procurou por Gordo na esquina em que o vira mais cedo, porém não o encontrou. Ainda assim, muito determinado, resolveu averiguar os bares que conhecia pela redondeza, e, em sua terceira tentativa, o encontrou.

Roger entrou em um bar, por uma porta que mais se assemelhava a um portal para outra dimensão, pois foi carregado de um mundo decrépito e decadente do lado de fora para um ambiente, se possível, ainda mais impregnado da derrota, do vício e total falta de esperança. Um garçom velho, de feições que mais pareciam ter sido esculpidas em madeira, limpava um copo e apenas o observou, enquanto ele caminhava por entre as mesas vazias, com vestígios que indicavam que, algum dia, talvez muitos anos atrás, algumas pessoas tiveram a coragem de frequentar esse ambiente, e isso o fez pensar na própria vida, e em como um dia, no passado, sua vida também havia presenciado dias de maior glória dos que os dias atuais.

Encostado em um canto, bebericando um vinho adocicado, do tipo que se compra em supermercados, estava Gordo, com a taça em uma mão, e o baralho na outra, com a qual praticava embaralhadas das mais variadas sem sequer olhar para o que estava fazendo, a mente absorta em pensamentos distantes, talvez, quem sabe, até pensamentos dispersos sobre alguma garota. Roger sentou-se a alguns bancos de distância de Gordo no balcão, esquadrinhando todo o recinto, observando os detalhes ao seu redor, e finalmente pediu uma bebida ao barman sinistro.


- Uma dose da sua pinga mais barata.


O barman, como se não tivesse precisando sequer ouvir qual seria o pedido para saber o que o freguês iria consumir, já se dirigia para sua adega, tateando em busca de alguma cachaça produzida no quintal de algum vizinho, que se encontrava, com certeza, em situação tão deprimente e sem futuro quanto a deles. Serviu-a em um copo raso e a deixou em cima do balcão, ao alcance de Roger, fitando de maneira corriqueira, sem demonstrar interesse algum.


- Afogando as mágoas, amigo?


A pergunta do barman desconcertou Roger, que até então, nem sequer havia pensado em conversar com aquele ser, cuja existência já devia ter visto e ouvido de tudo nos balcões daquele ambiente funesto. Quase sem pensar, seus lábios moveram-se, como se possuíssem vida própria, e se encarregaram de responder ao barman e por um fim à conversa, afinal, seu objetivo ali era outro, e ele não podia perder o foco.


- O problema com as mágoas, é que elas aprendem a nadar facilmente...


E, em um tom seco e totalmente sarcástico, completou:


- Amigo.


O barman não se abalou. Estava acostumado com todo o tipo de bêbado repugnante capaz de ser imaginado na face da Terra, e simplesmente se afastou e voltou para sua tarefa mecânica de polir os copos que provavelmente nunca seriam utilizados. Roger tomou sua dose em um só gole, e então se aproximou de Gordo, que até então não havia sequer notado sua presença. Parado em sua frente, analisou Gordo dos pés à cabeça. O rapaz corpulento não apresentava nenhuma marca de alguém que já teve que enfrentar a verdadeira realidade das ruas miseráveis. Usava calças um pouco largas, e uma camiseta um tanto quanto apertada. Um de seus braços apresentava uma tatuagem, um Ás de Espadas. Seu cabelo destoava do resto de sua imagem, pois suas roupas pareciam ser as mesmas pelos últimos anos, seu rosto não trazia o sorriso de quem obteve várias glórias, mas sim rugas de quem há muito tempo deixou de sorrir. Quanto ao cabelo, este era impecável, como se tivesse acabao de sair de um salão de beleza. Roger não hesitou e, mantendo contato visual com Gordo, que acabara de notá-lo no recinto, disse:


- Pôker.

Gordo, que até então estava absorto em pensamentos sobre uma certa garota loira, parou pela primera vez para notar a pessoa que lhe dirigia a palavra. Um homem com a pele um pouco escura, vestindo calças que já estavam rasgadas em alguns pontos, seguras em seu corpo por um par de suspensórios que, definitivamente, não combinavam com a camiseta cor-de-rosa que ele vestia, muito menos com a jaqueta marrom que carregava nos braços. O cabelo era de um negro profundo, e dividido ao meio, de forma que ele lembrava algum habitante primórdio das florestas ao sul da América. Seus olhos, apesar de pequenos, demonstravam certa determinação, e a cabeça, mantida sempre levemente inclinada para cima, deu a ideia a Gordo de que aquele homem não gostava de ser humilhado, e que faria o possível para que isso não acontecesse.


- Como?


A resposta indagativa de Gordo, que se sentiu inclinado à dar trela à um desconhecido, foi o estopim para uma mirabolante conversa sobre planos futuros e uma nova perspectiva de vida para ambos. Os dois se encontravam na sarjeta e, com a ideia e Roger, poderiam sair, não só da sarjeta, como também daquela cidade maldita que aprisionava suas almas e as matava um pouco mais a cada dia que passava.




quinta-feira, 30 de junho de 2011

Capítulo 1: ROGER (parte II)

II


Tudo começou aos seus 13 anos, quando ele viu sua primeira Revista de Mulher Pelada. Naquele instante, Roger, um simples garoto no início da puberdade, descobriu qual era o sentido de sua vida. De repente era como se um pedaço que ele nem mesmo sabia que faltava em sua alma houvesse voltado ao lugar, e ele se encontrava completo outra vez. Sua paixão eram aqueles peitos, aquelas bocas. Sua motivação eram as pernas e, que Deus me perdoe, mas até os pés. Roger era obcecado por mulheres e por sexo, chegando, inclusive, a lhe render na adolescência o pitoresco apelido de Roginho Boceta. Conforme foi crescendo, Roger descobriu qual era sua outra paixão na vida e, ironicamente, ela se completava com as mulheres e o sexo, assim como o açúcar completa um café amargo no fim de tarde em uma sexta-feira medíocre. Roger havia se apaixonado pelo poder.

Sua longa jornada em busca de seus objetivos, entretanto, definitivamente não foi um mar de rosas.

Como Roger não vinha de uma família abastada, precisou usar de métodos ardilosos e nem sempre bem-vistos para conseguir o que queria. Infiltrado no submundo da jogatina, foi quando chegou ao fundo do poço. E foi também quando começou sua escalada ao topo.

Aos 19 anos, sem dinheiro e nenhuma perspectiva, todas suas esperanças se encontravam no fundo das garrafas de whisky barato vazias, jogadas pelo chão de seu quarto escuro, em uma rua pouco movimentada, em uma cidade cujo nome sequer é lembrado. Ele estava em um beco sem saída e precisava de ajuda, mas não havia onde encontrá-la. Andando pelas ruas, sempre empunhando uma garrafa de qualquer substância alcóolica, se entregava aos mais desagradáveis pensamentos. Roger só podia concluir que sua vida chegara ao fim bem antes de sequer chegar perto dos sonhos que havia cultivado com carinho por tanto tempo. As Revistas de Mulher Pelada ainda estavam jogadas pela sua cama, sob a escrivaninha e até mesmo na pia da cozinha e em cima do fogão, mas a chama do fogão que as vezes queimava as bordas das páginas, agora ardia muito mais que a chama da ambição nos olhos de Roger.

Andando a esmo, embriagado em seus passos totalmente niilistas, Roger literalmente tropeçou na sua salvação, e nem sequer sabia disso. Sentado no meio-fio em uma esquina um pouco mais movimentada, mas não menos cinzenta, da mesma cidade, ele conheceu Luquinhas – um rapaz um pouco acima do peso, porém profundamente vaidoso. Seus amigos o chamavam simplesmente de Gordo, e ele era um mágico de rua. Ganhava a vida (ou, no caso, garantia sua sobrevivência, pois o que ele levava mal podia ser chamado de vida) enganando os pedestres na rua com suas mãos hábeis – mãos essas que até mesmo Deus e o Diabo duvidam dos lugares por onde já estiveram e as coisas que já fizeram. Truques com baralho, moedas e outros utensílios sempre lhe rendiam alguns trocados dentro do chapéu que havia em sua frente, mas que nunca era usado na cabeça, afinal, como já mencionado, Gordo era um rapaz muito vaidoso, e o chapéu estragaria seu penteado.

Roger, mais embriagado que sóbrio pelos últimos meses, viu os truques que Gordo fazia e não conseguia entender de onde aquele maltrapilho de cabelo reluzente conseguia tirar as cartas ou as moedas. Tentou inúmeras vezes acompanhar os movimentos ágeis do carteado e acabava sempre com as mesmas dúvidas sobre como aquilo tudo era possível.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Capítulo 1: ROGER (parte I)

I

Roger era, como ele mesmo gostava de auto-denominar, “o dono do maior estabelecimento para entretenimento adulto do velho-oeste”, o que não passava de uma grande mentira, pois não estávamos no oeste, e muito menos as coisas eram velhas. Além de uma grande mentira, era também um grande eufemismo e uma grande frescura, para dizer que Roger, nada mais era do que o dono de um puteiro. Mas uma coisa era preciso ser reconhecida, ele realmente sabia como tratar o entretenimento adulto como uma verdadeira obra de arte para os que gostavam de apreciá-la como tal, ou como uma excelente ferramenta de lazer e descontração

A história de Roger e do seu império do sexo não era uma das coisas que ele mais gostava de comentar, mas todos sabiam ou faziam pelo menos ideia do que foi preciso ser feito para ele chegar à posição em que se encontrava e, querendo ou não, Roger gostava de ser temido e reconhecido pelos feitos que nem sempre assumia, mas também não negava.



***

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Prólogo

A rua era escura e estava totalmente vazia. Bom, não totalmente, pois era possível distinguir um vulto entre a névoa que cobria o asfalto, e a chuva fina que caía naquele começo de madrugada. O som dos passos que caminhavam em direção a esse vulto e quebravam o silêncio daquela cena só não eram mais audíveis que as notas que ressoavam de um saxofone.

Ela caminhou em direção ao vulto e encontrou um homem, não muito mais do que um jovem, apoiado com um pé no único poste que estava com a luz acesa naquela rua. Enquanto ela refletia sobre o quão aquela cena parecia surreal, o saxofonista continuou sua melodia, alheio a presença da bela jovem que se aproximara. Com esmero, dedilhava seu instrumento musical e produzia notas da mais pura e profunda beleza, tais as quais os ouvidos da linda moça jamais haviam antes escutado.

Percebendo a presença de uma mulher a sua frente, o saxofonista parou de tocar. Com muita calma, e com a frieza de quem já está habituado ao gesto, procurou no bolso lateral de seu casaco surrado por uma carteira de cigarros e seu isqueiro entalhado com cartas de baralho. Posicionando o saxofone de lado, levou um cigarro à boca e o acendeu, enquanto fitava a senhorita que havia caminhado em sua direção.

Seus olhos se encontraram, e aqueles breves segundos pareceram uma eternidade, tamanha foi a tensão que preenchia o ar. O barulho das gotas de chuva agora era o único som existente naquele tempo e espaço. Não mais haviam os passos apressados e preocupados da senhorita, muito menos as notas musicais sinceras do saxofonista.

Como se fosse isso que era o esperado dela, a garota jogou seus lindos cabelos ruivos para trás, revelando um rosto que era muito mais lindo do que o saxofonista havia imaginado. Em seguida, tateando sua própria bolsa, encontrou também um cigarro e o levou à boca.

O saxofonista, calejado por anos de experiência na vida boêmia, sabia exatamente como agir. Em um gesto ágil, sacou seu isqueiro e o acendeu, frente ao rosto da linda ruiva. Seus olhos não se desviaram nem por um segundo enquanto ele acendia o cigarro da mesma. Ela tragou profundamente, como se estivesse avaliando a situação, e, então, em um suspiro, exalou toda a fumaça e finalmente disse as palavras que queria dizer sobre a música que havia ouvido pela primeira vez naquela noite chuvosa, naquela rua escura:

- Que melodia triste.


O saxofonista, em um misto de humor, sadismo, incredulidade e pena, contentou-se em fitá-la longamente e, tocando levemente sua face enquanto falava, respondeu-lhe:


- Querida, você não sabe nada sobre a tristeza.