Mais tarde, no mesmo dia em que tropeçou no mágico decadente, Roger encontrava-se jogado sob seu sofá encardido e esburacado, em um apartamento onde não havia nenhum talher e muito menos copos limpos, bebericando uma cerveja quente e comendo salgadinhos cujo prazo de validade era sem dúvida questionável – mas, por outro lado, qual alimento em sua casa, totalmente desordenada, não tinha procedência questionável? Eis que, não menos que de repente, uma ideia o acometeu, tão súbita quanto uma punhalada pelas costas de um melhor amigo, e Roger, que foi pego de sopetão por seu próprio pensamento, engasgou com a cerveja, tamanha foi a clareza com que o plano se esboçou em sua mente já cansada de perder. Rapidamente se levantou, jogou os salgadinhos pelo chão, onde estes fizeram companhia à uma enorme quantidade de comida ou coisas que nem mesmo longos testes em laboratórios poderiam dizer o que são, e vestiu uma jaqueta velha, que só não estava mais suja porque nos últimos dias Roger havia sido surpreendido por chuvas inusitadas, e essas chuvas deram uma lavadinha em suas vestes.
Como um louco tomado por uma obsessão repentina, ele procurou por Gordo na esquina em que o vira mais cedo, porém não o encontrou. Ainda assim, muito determinado, resolveu averiguar os bares que conhecia pela redondeza, e, em sua terceira tentativa, o encontrou.
Roger entrou em um bar, por uma porta que mais se assemelhava a um portal para outra dimensão, pois foi carregado de um mundo decrépito e decadente do lado de fora para um ambiente, se possível, ainda mais impregnado da derrota, do vício e total falta de esperança. Um garçom velho, de feições que mais pareciam ter sido esculpidas em madeira, limpava um copo e apenas o observou, enquanto ele caminhava por entre as mesas vazias, com vestígios que indicavam que, algum dia, talvez muitos anos atrás, algumas pessoas tiveram a coragem de frequentar esse ambiente, e isso o fez pensar na própria vida, e em como um dia, no passado, sua vida também havia presenciado dias de maior glória dos que os dias atuais.
Encostado em um canto, bebericando um vinho adocicado, do tipo que se compra em supermercados, estava Gordo, com a taça em uma mão, e o baralho na outra, com a qual praticava embaralhadas das mais variadas sem sequer olhar para o que estava fazendo, a mente absorta em pensamentos distantes, talvez, quem sabe, até pensamentos dispersos sobre alguma garota. Roger sentou-se a alguns bancos de distância de Gordo no balcão, esquadrinhando todo o recinto, observando os detalhes ao seu redor, e finalmente pediu uma bebida ao barman sinistro.
- Uma dose da sua pinga mais barata.
O barman, como se não tivesse precisando sequer ouvir qual seria o pedido para saber o que o freguês iria consumir, já se dirigia para sua adega, tateando em busca de alguma cachaça produzida no quintal de algum vizinho, que se encontrava, com certeza, em situação tão deprimente e sem futuro quanto a deles. Serviu-a em um copo raso e a deixou em cima do balcão, ao alcance de Roger, fitando de maneira corriqueira, sem demonstrar interesse algum.
- Afogando as mágoas, amigo?
A pergunta do barman desconcertou Roger, que até então, nem sequer havia pensado em conversar com aquele ser, cuja existência já devia ter visto e ouvido de tudo nos balcões daquele ambiente funesto. Quase sem pensar, seus lábios moveram-se, como se possuíssem vida própria, e se encarregaram de responder ao barman e por um fim à conversa, afinal, seu objetivo ali era outro, e ele não podia perder o foco.
- O problema com as mágoas, é que elas aprendem a nadar facilmente...
E, em um tom seco e totalmente sarcástico, completou:
- Amigo.
O barman não se abalou. Estava acostumado com todo o tipo de bêbado repugnante capaz de ser imaginado na face da Terra, e simplesmente se afastou e voltou para sua tarefa mecânica de polir os copos que provavelmente nunca seriam utilizados. Roger tomou sua dose em um só gole, e então se aproximou de Gordo, que até então não havia sequer notado sua presença. Parado em sua frente, analisou Gordo dos pés à cabeça. O rapaz corpulento não apresentava nenhuma marca de alguém que já teve que enfrentar a verdadeira realidade das ruas miseráveis. Usava calças um pouco largas, e uma camiseta um tanto quanto apertada. Um de seus braços apresentava uma tatuagem, um Ás de Espadas. Seu cabelo destoava do resto de sua imagem, pois suas roupas pareciam ser as mesmas pelos últimos anos, seu rosto não trazia o sorriso de quem obteve várias glórias, mas sim rugas de quem há muito tempo deixou de sorrir. Quanto ao cabelo, este era impecável, como se tivesse acabao de sair de um salão de beleza. Roger não hesitou e, mantendo contato visual com Gordo, que acabara de notá-lo no recinto, disse:
- Pôker.
Gordo, que até então estava absorto em pensamentos sobre uma certa garota loira, parou pela primera vez para notar a pessoa que lhe dirigia a palavra. Um homem com a pele um pouco escura, vestindo calças que já estavam rasgadas em alguns pontos, seguras em seu corpo por um par de suspensórios que, definitivamente, não combinavam com a camiseta cor-de-rosa que ele vestia, muito menos com a jaqueta marrom que carregava nos braços. O cabelo era de um negro profundo, e dividido ao meio, de forma que ele lembrava algum habitante primórdio das florestas ao sul da América. Seus olhos, apesar de pequenos, demonstravam certa determinação, e a cabeça, mantida sempre levemente inclinada para cima, deu a ideia a Gordo de que aquele homem não gostava de ser humilhado, e que faria o possível para que isso não acontecesse.
- Como?
A resposta indagativa de Gordo, que se sentiu inclinado à dar trela à um desconhecido, foi o estopim para uma mirabolante conversa sobre planos futuros e uma nova perspectiva de vida para ambos. Os dois se encontravam na sarjeta e, com a ideia e Roger, poderiam sair, não só da sarjeta, como também daquela cidade maldita que aprisionava suas almas e as matava um pouco mais a cada dia que passava.