IV
Os dois passaram os próximos anos de suas vidas ganhando dinheiro sujo, aplicando trapaças em jogos de pôker nos lugares mais insólitos da cidade e da redondeza. Em pouco tempo já eram visíveis os ganhos materiais dos dois trambiqueiros. Gordo estava com seu cabelo cada vez mais reluzente e bem penteado, e agora suas roupas acompanhavam o brilho capilar. Sempre bem vestido, com relógios modernos e camisetas de gola V, passou a enxergar na moda um novo hobby. Já Roger agora se vestia com roupas de flanela e ostentava pesadas correntes de ouro no pescoço. Atualmente, os que presenciaram as peripécias dos dois, costumam se referir às histórias como “os esqueminhas de Domingo”, pois todas as partidas de pôker aconteciam em Domingos pela parte da noite, que era, geralmente, o único momento da semana em que olhos alheios tinham a chance de ver Gordo e Roger juntos.
Tudo estava correndo as mil maravilhas, até que um dia a ganância e sede de vitória de Roger falou mais alto, e alguns movimentos em falso durante uma partida, com pessoas da pior espécie possível, o denunciaram. A farsa foi flagrada, e nem mesmo as ágeis mãos de Gordo foram capazes de arquitetar uma saída maluca para disfarçar a trapaça. A surra que os dois levaram foi homérica. Algo nunca antes visto, mesmo em uma cidade violenta e esquecida como aquela. Os chutes os atingiam e eles nem sabiam de onde é que vinham tantos pés recheados de ódio. O ar lhes faltava no pulmão e o único gosto que suas bocas sentia, além do medo e da surpresa, era o de sangue, juntamente com dentes sendo quebrados. O som dos ossos se partindo ressoava pela noite, como uma espécie de aviso aos próximos que considerassem a ideia de tentar qualquer gracinha. Nem mesmo o impecável cabelo de Gordo foi poupado, e pancadas em sua nunca o deixaram empapado em sangue, gel e vergonha. Aquele havia sido o ponto final para ambos, e, após dividir o dinheiro que haviam conseguido juntos, despediram-se sem muitas palavras e cada um tomou um rumo diferente, mas com igual vontade de sumir logo daquela cidade, que sugava a alma das pessoas e as corroía como ácido.
Com todas as notas de dinheiro dentro de uma sacola, e as várias roupas e adornos que havia comprado com a grana sujo em uma mala, Roger despediu-se de Gordo, não como alguém que se despde de um amigo, mas sim como alguém que se despede de um sócio. Entretanto, para quem sabe ler nas entrelinhas, era mais do que visível que existia ali algo de mutualidade e cumplicidade que ia além das simples relações de empreendimento que os dois travaram nos últimos anos. Quando ambos já estavam de costas, foi Roger quem proferiu as primeiras palavras, que provavelmente seriam as últimas que trocariam:
- Acho que finalmente começamos a viver. Não existe melhor momento para enfim ter medo da morte.
E Gordo, sem mesmo olhar para trás ou diminuir a velocidade de seus passos, respondeu-lhe, com certo tom de pesar em sua voz por vezes inflexível:
- Por quantos malditos caminhos um homem deve percorrer até se encontrar?