quinta-feira, 30 de junho de 2011

Capítulo 1: ROGER (parte II)

II


Tudo começou aos seus 13 anos, quando ele viu sua primeira Revista de Mulher Pelada. Naquele instante, Roger, um simples garoto no início da puberdade, descobriu qual era o sentido de sua vida. De repente era como se um pedaço que ele nem mesmo sabia que faltava em sua alma houvesse voltado ao lugar, e ele se encontrava completo outra vez. Sua paixão eram aqueles peitos, aquelas bocas. Sua motivação eram as pernas e, que Deus me perdoe, mas até os pés. Roger era obcecado por mulheres e por sexo, chegando, inclusive, a lhe render na adolescência o pitoresco apelido de Roginho Boceta. Conforme foi crescendo, Roger descobriu qual era sua outra paixão na vida e, ironicamente, ela se completava com as mulheres e o sexo, assim como o açúcar completa um café amargo no fim de tarde em uma sexta-feira medíocre. Roger havia se apaixonado pelo poder.

Sua longa jornada em busca de seus objetivos, entretanto, definitivamente não foi um mar de rosas.

Como Roger não vinha de uma família abastada, precisou usar de métodos ardilosos e nem sempre bem-vistos para conseguir o que queria. Infiltrado no submundo da jogatina, foi quando chegou ao fundo do poço. E foi também quando começou sua escalada ao topo.

Aos 19 anos, sem dinheiro e nenhuma perspectiva, todas suas esperanças se encontravam no fundo das garrafas de whisky barato vazias, jogadas pelo chão de seu quarto escuro, em uma rua pouco movimentada, em uma cidade cujo nome sequer é lembrado. Ele estava em um beco sem saída e precisava de ajuda, mas não havia onde encontrá-la. Andando pelas ruas, sempre empunhando uma garrafa de qualquer substância alcóolica, se entregava aos mais desagradáveis pensamentos. Roger só podia concluir que sua vida chegara ao fim bem antes de sequer chegar perto dos sonhos que havia cultivado com carinho por tanto tempo. As Revistas de Mulher Pelada ainda estavam jogadas pela sua cama, sob a escrivaninha e até mesmo na pia da cozinha e em cima do fogão, mas a chama do fogão que as vezes queimava as bordas das páginas, agora ardia muito mais que a chama da ambição nos olhos de Roger.

Andando a esmo, embriagado em seus passos totalmente niilistas, Roger literalmente tropeçou na sua salvação, e nem sequer sabia disso. Sentado no meio-fio em uma esquina um pouco mais movimentada, mas não menos cinzenta, da mesma cidade, ele conheceu Luquinhas – um rapaz um pouco acima do peso, porém profundamente vaidoso. Seus amigos o chamavam simplesmente de Gordo, e ele era um mágico de rua. Ganhava a vida (ou, no caso, garantia sua sobrevivência, pois o que ele levava mal podia ser chamado de vida) enganando os pedestres na rua com suas mãos hábeis – mãos essas que até mesmo Deus e o Diabo duvidam dos lugares por onde já estiveram e as coisas que já fizeram. Truques com baralho, moedas e outros utensílios sempre lhe rendiam alguns trocados dentro do chapéu que havia em sua frente, mas que nunca era usado na cabeça, afinal, como já mencionado, Gordo era um rapaz muito vaidoso, e o chapéu estragaria seu penteado.

Roger, mais embriagado que sóbrio pelos últimos meses, viu os truques que Gordo fazia e não conseguia entender de onde aquele maltrapilho de cabelo reluzente conseguia tirar as cartas ou as moedas. Tentou inúmeras vezes acompanhar os movimentos ágeis do carteado e acabava sempre com as mesmas dúvidas sobre como aquilo tudo era possível.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Capítulo 1: ROGER (parte I)

I

Roger era, como ele mesmo gostava de auto-denominar, “o dono do maior estabelecimento para entretenimento adulto do velho-oeste”, o que não passava de uma grande mentira, pois não estávamos no oeste, e muito menos as coisas eram velhas. Além de uma grande mentira, era também um grande eufemismo e uma grande frescura, para dizer que Roger, nada mais era do que o dono de um puteiro. Mas uma coisa era preciso ser reconhecida, ele realmente sabia como tratar o entretenimento adulto como uma verdadeira obra de arte para os que gostavam de apreciá-la como tal, ou como uma excelente ferramenta de lazer e descontração

A história de Roger e do seu império do sexo não era uma das coisas que ele mais gostava de comentar, mas todos sabiam ou faziam pelo menos ideia do que foi preciso ser feito para ele chegar à posição em que se encontrava e, querendo ou não, Roger gostava de ser temido e reconhecido pelos feitos que nem sempre assumia, mas também não negava.



***

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Prólogo

A rua era escura e estava totalmente vazia. Bom, não totalmente, pois era possível distinguir um vulto entre a névoa que cobria o asfalto, e a chuva fina que caía naquele começo de madrugada. O som dos passos que caminhavam em direção a esse vulto e quebravam o silêncio daquela cena só não eram mais audíveis que as notas que ressoavam de um saxofone.

Ela caminhou em direção ao vulto e encontrou um homem, não muito mais do que um jovem, apoiado com um pé no único poste que estava com a luz acesa naquela rua. Enquanto ela refletia sobre o quão aquela cena parecia surreal, o saxofonista continuou sua melodia, alheio a presença da bela jovem que se aproximara. Com esmero, dedilhava seu instrumento musical e produzia notas da mais pura e profunda beleza, tais as quais os ouvidos da linda moça jamais haviam antes escutado.

Percebendo a presença de uma mulher a sua frente, o saxofonista parou de tocar. Com muita calma, e com a frieza de quem já está habituado ao gesto, procurou no bolso lateral de seu casaco surrado por uma carteira de cigarros e seu isqueiro entalhado com cartas de baralho. Posicionando o saxofone de lado, levou um cigarro à boca e o acendeu, enquanto fitava a senhorita que havia caminhado em sua direção.

Seus olhos se encontraram, e aqueles breves segundos pareceram uma eternidade, tamanha foi a tensão que preenchia o ar. O barulho das gotas de chuva agora era o único som existente naquele tempo e espaço. Não mais haviam os passos apressados e preocupados da senhorita, muito menos as notas musicais sinceras do saxofonista.

Como se fosse isso que era o esperado dela, a garota jogou seus lindos cabelos ruivos para trás, revelando um rosto que era muito mais lindo do que o saxofonista havia imaginado. Em seguida, tateando sua própria bolsa, encontrou também um cigarro e o levou à boca.

O saxofonista, calejado por anos de experiência na vida boêmia, sabia exatamente como agir. Em um gesto ágil, sacou seu isqueiro e o acendeu, frente ao rosto da linda ruiva. Seus olhos não se desviaram nem por um segundo enquanto ele acendia o cigarro da mesma. Ela tragou profundamente, como se estivesse avaliando a situação, e, então, em um suspiro, exalou toda a fumaça e finalmente disse as palavras que queria dizer sobre a música que havia ouvido pela primeira vez naquela noite chuvosa, naquela rua escura:

- Que melodia triste.


O saxofonista, em um misto de humor, sadismo, incredulidade e pena, contentou-se em fitá-la longamente e, tocando levemente sua face enquanto falava, respondeu-lhe:


- Querida, você não sabe nada sobre a tristeza.